Publicado por: esporos em: Maio 4, 2009
A semana passada e ainda esta estamos discutindo na graduação o livro Mozart – Sociologia de um Gênio, de Norbert Elias.
João Rizek, que é aluno de Cinema, um músico que já tive a oportunidade de ouvir e já passou pela disciplina de Estética, escreveu respondendo a um pedido meu sobre o tema que intitula esse post: Mozart e a construção da autonomia. Confiram logo mais abaixo sua generosa e inspiradora contribuição. Eu espero que o esporos continue recebendo sua colaboração!
João mantem o blog Improviso Seletivo em que expressa suas opiniões musicais, e que a partir de hoje está linkado no “Dizem por aí”.
Chega de mais conversa: vamos “ouvir” o João:
“Mozart é, entre os compositores do classicismo vienense, o que mais se afasta do ideal estabelecido de classicidade, atingindo assim um ideal superior que se poderia chamar autenticidade.” Este fragmento escrito por Theodor Adorno, inserido no complemento de aforismos à obra maior do filósofo, Teoria Estética, nos mostra, para além de sua admiração em Mozart, sua crença na autonomia da arte. Autonomia que se estabelece por colocar o artista, no caso o músico, em um patamar superior àquele orientado pelas regras vigentes.
Wolgang Amadeus Mozart (1756-1791) foi, junto de Joseph Haydn(1732-1809), um dos pilares do classicismo. Breve movimento musical (1750-1810 aproximadamente) que viu surgir os mais célebres formatos, quarteto de cordas e a sinfonia entre eles. Sua chave se estabelece em uma recusa às sonoridades pesadas e afirmativas do Barroco, seu estilo é mais leve, sua tessitura mais simples. O classicismo é a afirmação definitiva da chamada música absoluta, ou seja, música sem referências externas a ela mesma; movimento que já vinha crescendo desde o Renascimento. Com a consolidação do formato instrumental, a música não está mais subordinada à palavra, a melodia se torna livre do caráter limitador da palavra, seu caráter abstrato passa a imperar.
Um bom e conhecido exemplo da noção de autonomia na obra de Mozart é sua sinfonia número 40 em sol menor K. 550. Nela, o primeiro tema do primeiro movimento (tocado pelas cordas) tem um caráter afirmativo, está seguindo em direção a algo até que é interrompido pelos instrumentos de sopro, mudando de direção logo em seguida. Aqui é claro o papel de cada instrumento na construção da narrativa musical, sua importância e sua identidade são levados ao máximo, eles são, em certo sentido, independentes, autônomos.
Já na sonata para piano em Lá menor K.310, a melodia é amparada pela mão esquerda do pianista, que se concentra em tocar acordes que sustentam o canto. A melodia sobressai toda a massa sonora buscando sua autonomia.
Devido ao caráter abstrato da música, por vezes é complicado entender aonde reside sua autonomia dentro do próprio discurso musical. É preciso ter em mente que cada instrumento desempenha um papel diferente na obra, é preciso saber ouvir aos diferentes temas presentes na música. Mozart talvez seja o melhor exemplo quando realizamos uma análise estabelecendo os contrastes entre as formas vigentes e suas obras mais ousadas, observar sua capacidade de ver adiante é verificar como afirmou Adorno que “na arte autônoma nada é válido que esteja aquém do nível técnico alcançado.”
1 | Gabriela
Agosto 3, 2009 às 4:57 am
Edila, lembrei-me de vc e deste post quando vi essa matéria interessante desse magnifico artista:
http://musica.uol.com.br/ultnot/reuters/2009/08/02/pecas-de-mozart-recem-descobertas-sao-executadas-na-austria.jhtm
Beijos.