Esporos

Sobre a brevidade da Vida*

Publicado por: esporos em: Março 12, 2009

Uma reflexão para comemorar os anos “vividos”:

Do filósofo Sêneca (4 a.C.? – 65 d.C.):

“1. Nenhum ser humano deixará de se espantar com a cegueira do espírito humano. Ninguém permite que sua propriedade seja invadida, e, havendo discórdia quanto aos limites, por menor que seja, os homens pegam em pedras e armas. No entanto, permitem que outros invadam suas vidas de tal modo que eles próprios conduzem seus invasores a isso. Não se encontra ninguém que queira dividir sua riqueza, mas a vida é distribuída entre muitos! São econômicos na preservação de seu patrimônio, mas desperdiçam o tempo, a única coisa que justificaria a avareza.

2. Agradar-me ia questionar qualquer um dentre os mais velhos: “Vemos que já atingiste o fim da vida, tens cem ou mais anos.
Vamos, faz o cálculo da tua existência. Conta quanto deste tempo foi tirado por um credor, uma amante, pelo poder, por um cliente. Quanto tempo foi tirado pelas brigas conjugais e por aquelas com escravos, pelo dever das idas e vindas pela cidade. Acrescenta, ainda, as doenças causadas por nossas próprias mãos e também todo o tempo disperdiçado. Verás que tens menos anos do que contas.

3. Perscruta a tua memória: quando atingiste um objetivo? Quantas vezes o dia transcorreu como o planejado? Quando usaste teu tempo contigo mesmo? Quando mantiveste uma boa aparência, o espírito tranquilo? Quantas obras fizesta para ti num período tão longo? Quantos não esbanjaram a tua vida sem que notasses o que estava perdendo? O quanto de tua existência não foi retirado pelos sofrimentos, paixões ávidas, conversas inúteis, e quão pouco te restou do que era teu? Compreenderás que morres cedo!

4. O que está em causa então? Viveste como se fosses viver para sempre, nunca te ocorreu a tua fragilidade. Não te dás conta de quanto tempo já transcorreu. Como se fosse pleno e abundante, o desperdiças e, nesse ínterim, o tempo que dedicas a alguém ou a alguma coisa talvez seja o teu último dia. Temes todas as coisas como os mortais, desejas outras tantas tal qual os imortais.

5. Ouvirás a maioria dizendo: “Aos cinquenta anos me dedicarei ao ócio. Aos sessenta, ficarei livre de todos os encargos”. Que certeza tens de que há uma vida tão longa? O que garante que as coisas se darão como dispões? Não te envergonhas de destinar para ti somente resquícios da vida e reservar para a meditação apenas a idade que já não é produtiva? Não é tarde demais para começar a viver, quando já é tempo de desistir de fazê-lo? Que tolice dos mortais a de adiar para o quinquagésimo ou sexagésimo anos as sábias decisões e, a partir daí, onde poucos chegaram, mostrar o desejo de começar a viver?”

*(Porto Alegre: LP&M, 2007)

As primeiras exposições para os blogs das turmas de Estética

Publicado por: esporos em: Março 10, 2009

A imagem da iaô, a noviça que passa pelo ritual de iniciação para tornar-se filha-de-santo.

Bahia, 1951.

Fotografia de José de Medeiros, em exposição no Instituto Moreira Sales, comentada no blog da Turma F.

 

 

Semana passada foram postados os primeiros relatos para o trabalho de Visitas às exposições para a disciplina de Estética 1 dos cursos de comunicação da  FAAP.

Coincidentemente as turmas A (Publicidade) e C (Cinema e Rádio e TV), além de terem escolhido a mesma exposição – 1000 Minutos – escolheram o mesmo template para o blog! Pelo relato dos dois grupos, Alice, Bruna e Camila (da turma A), e Leonardo, Luís e Pedro (turma C), a exposição vale a pena.

Gabriela, Jéssica e Rafaela foram ao Museu da Casa Brasileira. Que é um museu lindo. Eu, pessoalmente, adoro aquele espaço. Mas não encontraram uma exposição com o trabalho de um artista. Elas comentam o acervo com peças do mobiliário brasileiro.

Pedro, Lauri, Tuany e Yannis visitaram o Museu do Futebol. Pelo que o próprio grupo diz – e também pelo que tenho ouvido por aí – o museu tem agradado o público pelos recursos de interatividade que oferece, além do acervo rico sobre a história do futebol. Mas, como a proposta é uma visita a uma exposição de Arte, o grupo fará novo comentário no blog da Turma D. Assim como as meninas que visitaram o Museu da Casa Brasileira. De qualquer maneira, saímos ganhando pois o Museu do Futebol e o acervo do Museu da Casa Brasileira [que também traz uma programação com exposições de arte] são muito interessantes.

Na turma F já temos dois comentários. Um da semana passada quando Carolina, Maria Luíza, Rafaella e Stephanie visitaram o Museu de Arte Brasileira, na própria FAAP. A exposição em curso traz as obras recentemente adquiridas pelo museu – confira algumas imagens no blog da turma F. Há trabalhos de Jum Nakao e Anita Malfatti, só para citar dois.

Ontem, Marcelo, Mariana, Vítor, Felipe e Marcos visitaram o Instituto Moreira Salles para conferir a exposição do fotógrafo José Medeiros, segundo o grupo, considerado o primeiro fotojornalista brasileiro. Na opinião do grupo, o material mais surpreendente é o produzido para a Revista Cruzeiro, em 1951, na reportagem “As noivas dos deuses sanguinários”. Estas fotografias estão reunidas no livro Candomblé, relançado agora pelo Instituto.

Por fim, temos o comentário de Rafaela e Gabriela, da turma H. Elas visitaram o Museu da Língua Portuguesa. Não havia nenhuma exposição em curso. Apenas o acervo, riqúissimo, e comentado pela dupla. Delas, A-D-O-R-E-I a expressão “planetário de palavras”, o modo como elas se referiram a um dos espaços expositivos do museu que faz uma apresentação multimídia da nossa língua-literatura.

Infelizmente, não tivemos ainda um grupo da Turma G (Cinema, Rádio e TV noite) que tivesse postado um comentário. Estamos esperando esta sexta!

De uma maneira geral, acho que as dicas foram boas. Alguns textos talvez sejam reprodução das informações da própria exposição e, se for este o caso, devemos lembrar das aspas.

Não se intimidem para usar a liberdade de opinião para comentar as exposições visitadas. Também não se esqueçam que o comentário do grupo pode ser feito de modo individual e coletivo.

Arte, ilusão e ironia

Publicado por: esporos em: Março 2, 2009

The crevasse

Eu vivo dizendo – e a idéia não é original – que grande parte da história da arte pode ser explicada pelo desejo de atingir  a perfeita ilusão do real – o paradoxo do apagamento da distinção entre real e ilusão. A velha, fulcral e sempre nova discussão sobre a mímesis.

Também a evolução das técnicas e tecnologias de reprodução do real e de criação de “reais paralelos” poderia ser explicada pelo mesmo desejo.

Hoje, dos games à Disney, passando pelas telas IMax e muitas outras ferramentas – como as desenvolvidas por Char Davies em Osmose e Epheme – a tecnologia pode nos proporcionar a “experiência” de um real simulado ou inventado.

Em agosto do ano passado, o artista alemão Edgar Müller produziu mais uma de suas gigantescas obras de ilusão de ótica para o Festival de Cultura Mundial, na Irlanda. Posicionando-se no ponto certo, como fez o fotógrafo na imagem acima, você pode ter a “sensação” de estar, “de fato”, diante de uma grande cratera de gelo.  Tudo por obra e graça da perspectiva – esse grande achado da matemática e da ótica.

Curioso, encantador, estranho, interessante, divertido. Tudo explicado, sobra ainda – na experiência sensória –  qualquer coisa de misterioso nesso jogo de “trompe l’oeil”.

The crevasse

Reportagem do Daily Mail traz outras imagens do artista e aqui você pode ver o making-off de execução de The Crevasse:

E a ironia?

Bem, há muitas outras maneiras artísticas de lidar com a mímesis. Talvez esse modo seja um dos critérios para definir o caráter próprio de cada artista. Regina Silveira também se interessa pela perspectiva, mas “na perspectiva” da Arte – sua história, seus artistas, suas influências e seus conceitos. Como nessa obra In Absentia M. D, de 1983. Veja outras da mesma artista na Enciclopédia das Artes.

in-absentia M.D,

Silveira, Regina 
In Absentia M.D. , exata 1983 
látex sobre piso de cimento e painéis de madeira 
1000 x 2000 cm 
Reprodução fotográfica Romulo Fialdini

Faça um filme!

Publicado por: esporos em: Fevereiro 26, 2009

 

A revista Continuum do Instituto Itaú Cultural lançou o concurso “História de Cinema”, que está na sua segunda fase.Sua história daria um filme?

Na primeira, a revista convidou os leitores a enviarem uma “história de cinema” – ganhou uma leitora de Poços de Caldas – MG. Agora, a revista pede que os participantes enviem um filme para a história. O filme pode ser feito em qualquer mídia digital.

Veja abaixo o release do concurso:

 

Sua história daria um filme?

Com essa pergunta, a revista Continuum convidou seus leitores a narrar situações reais que renderiam boas cenas de cinema. A redação recebeu 224 relatos e o escolhido foi Amor, Substantivo Feminino, de Jesuane Salvador, de Poços de Caldas, Minas Gerais.

Que filme você faria com esta história?

Tendo em mãos uma filmadora, um celular, um software de animação ou qualquer outro dispositivo que gere imagens em movimento, interprete o episódio. Os melhores vídeos, selecionados pelo conselho editorial da Continuum, serão exibidos no site do instituto e seus autores ganharão o livro Ensaios e Reflexões − que reúne textos sobre a presença da linguagem cinematográfica nas artes visuais − e os catálogos da exposição Cinema Sim e da mostra O Visível e o Invisível, que exibiu filmes e vídeos que representam a produção cinematográfica realizada por artistas contemporâneos.

O autor do melhor vídeo ganhará, ainda, uma bolsa da oficina de adaptação na Academia Internacional de Cinema, de São Paulo, que apoia essa ação.

Os vídeos podem ser enviados até o dia 31 de março ao e-mail participecontinuum@itaucultural.org.br ou ao endereço Avenida Paulista, 149, 5º andar, CEP: 01311-000, São Paulo e devem ter, no máximo, cinco minutos de duração. Leia o regulamento completo.

imagem: João Pinheiro

Esse texto é a reprodução do e-mail de divulgação do Instituto ItaúCultural

Primavera Mágica

Publicado por: esporos em: Fevereiro 4, 2009

Você falou em feitiço,
encantamento,
e eu fiquei aqui
a fantasiar-
-me
como se fosse
fada ou bruxa
capaz
de recitar
palavras mágicas,
um abracadabra qualquer
que reflorestasse
florestas devastadas,
como essa estação
que vem agora,
depois do inverno.

Educação e Autonomia

Publicado por: esporos em: Fevereiro 3, 2009

Ontem foi o primeiro dia de aula na graduação.

Como eu gosto dos primeiros dias de aula! Os alunos novos. Expectativas remoçadas. A idéia de algo novo (re)começando. Sempre me traz as idéias de leveza e esperança.

Por isso sempre reflito e preparo com uma ansiedade típica de atriz em dia de estréia o meu texto pretendido para esse dia. Tento lembrar de frases bonitas e significativas. De citações importantes. De livros inesquecíveis. Com a esperança e o desejo de produzir ou ampliar uma abertura nas sensibilidades – mente, coração e ouvidos – para os textos e as idéias que deverão vir pouco a pouco durante o semestre. Com a declarada intenção de fazer as idéias tocarem e seduzirem para despertar a paixão do pensar. (Fernando Pessoa: “o que pensa em mim está sentindo”…)

Ontem foi, mais uma vez, o primeiro dia de aula. E foi muuuuuito legal. Adorei a conversa nas duas salas (H e F). É verdade: não havia muita gente. Poucos e bons. (Octavio Paz: “Nós, poucos, somos muitos”).

O tema de ontem e para essa semana: a Paidéiaa. Palavra em grego que quer dizer “educação”. Porém é comum os filósofos preferirem usar “paidea” ao invés da palavra “correspondente” em português. Pois, ao fazerem isso, querem deixar claro que estão se referindo à educação como os gregos a entendiam. Porque a idéia de educação dos gregos é tão diferente da nossa idéia de educação que, nesse sentido, paidéia não corresponde à palavra educação.

Façamos uma digressão antes de continuar o assunto: o tema “paidéia” foi introduzido como uma espécie de preãmbulo que seria o personagem principal da peça para explicar uma outra questão: o que é “Estética” e para que ela “serve”? Estas perguntas são especialmente comuns quando o público dessa disciplina é formado por alunos de Comunicação Social (Publicidade, Rádio e TV, Relações Públicas e Cinema).

Estética é uma filosofia da arte e é uma disciplina que compõe a grade do departamento de “Humanidades” – as disciplinas que têm, portanto, de alguma maneira, o humano como “objeto”.

Para que serve essa disciplina? Especialmente para um aluno de Publicidade ou Relações Públicas que têm uma atuação mais “de mercado”. O curso de Cinema talvez tenha mais afinidade com a idéia de discutir arte. Rádio e TV pode ficar a meio caminho, pois os alunos podem optar pela área de produção e administração dos mais variados produtos de TV e Rádio.

Pois é. Pareceria uma espécie de “luxo” (e à idéia de luxo está associada muitas vezes equivocadamente a noção de supérfluo) a proposição de um assunto tão complexo para alunos que não pretendem fazer “filosofia”. E o “pior”: estudam Sociologia, quando não querem ser cientistas sociais, História, quando não serão historiadores, Psicologia, quando não serão psicólogos e por aí vai… Na Faap, a grade de Humanidades corresponde praticamente à metade das disciplinas cursadas pelos alunos.

Isso tem um sentido: Num mundo dominado pela técnica e por sua cada vez mais veloz auto-superação não parece muito inteligente restringir o ensino à operação dessas. Com o atual estágio do desenvolvimento das técnicas é praticamente certo que as técnicas que dominam o mercado hoje não serão absolutamente as mesmas daqui a quatro anos – tempo médio que um aluno leva para fazer o ensino superior. É com um mundo complexo, em constante transformação que as pessoas terão de aprender a lidar. Para isso é necessário aprender a pensar. A criar soluções, a aprender de novo. E, embora os administradores burocratas adorem fórmulas, para isso não há fórmula. Aprende-se a pensar pensando. Decodificanto textos, filmes, quadros, signos. “Refletindo” sobre eles. Movimentando as idéias através da forma mais antiga de interatividade: o diálogo.

Essa forma do diálogo que deu nascimento na Grécia à filosofia e ao seu mais caro instrumento – a dialética. Uma idéia fundamentalmente bonita de que a diferença - a contradição colocada em jogo – melhora o pensamento. Mas que fique claro que duas ou mais pessoas concordando com a mesma idéia não constitui um “dia – logos”, ou seja, não há idéias diferentes conversando entre si. Há só a mesma idéia sendo repetida por duas pessoas. É um monólogo a duas vozes, na verdade.

Aliás, meu sobrinho de 12 anos fez uma charada ótima esses dias: Duas pessoas estão caminhando, cada uma carregando um pão. Elas se encontram e trocam esses pães. Quantos pães cada uma leva? Um somente, é óbvio. Duas pessoas estão caminhado. Cada uma carregando uma idéia. Elas se encontram e trocam essas idéias. Quantas idéias cada uma leva? (…) Simples, né? Cada uma leva duas idéias.

É isso que atrai na sala de aula: A possibilidade do diálogo. Do exercício da diferença. Da “prática” do pensamento que  leva cada um a pensar, como diz Kant, por si mesmo, no lugar de qualquer outro e de maneira consequente. Ou seja: assumir as próprias idéias, ser capaz de pensá-las a partir de um outro ponto de vista e em outras condições e, ainda, entender que você é responsável pelas idéias que tem e pelas ações que elas produzem. Seria isso o pensar de maneira “autônoma”.

Portanto, se eu consigo fechar o círculo, é para isso que “serve” a Estética. Como outras disciplinas das Humanidades, ela contribui para uma reflexão que intensifica o pensamento e a sensibilidade e pode nos ajudar a ser mais autônomos, como Kant queria. E faz isso por meio da Arte. Por entender que a Arte é uma das manifestações mais nobres do espírito humano. Do que há “de mais humano em nós”.

Para falar disso tudo, ontem nós falamos de Platão, da Alegoria da Caverna, de Aristóteles, de Mercado, da nossa obsessão pelo tema do relacionamento amoroso, do best-seller Comer, Rezar, Amar escrito por Elizabeth Gilbert, de futebol, do Garrincha, do livro sobre futebol do José Miguel Wisnik (Veneno Remédio), de um filme sobre jogo de futebol citado por ele que coloca pretos e brancos em times opostos porque também mencionamos o livro Homo Ludens, de Huizinga, que mostra como o homem “ritualiza” ludicamente suas mais variadas pulsões através dos ritos, dos jogos e da arte. Fábio que estava assistindo à aula já mandou me o link do trailer. Fábio, obrigada por interagir! Mais um filme na lista “Os filmes que ainda não vi e não posso deixar de ver”.

Ah, e ainda falamos da vastidão da cultura. Tipo: que não vai dar tempo de a gente ler, ver e ouvir todos os clássicos fundamentais da História da Filosofia, Literatura, Sociedade, Cinema, Séries de TV, Revista em Quadrinho, da Arte, da Ciência e do Conhecimento, da Medicina , da Computação, da Internet, das Novas Tecnologias etc etc.

Isso é desesperador. Mas é um alívio também. Ninguém vai ter tempo. E ninguém minimamente normal, interessante ou razoável acharia boa a idéia de se enfurnar num quarto trancado e dedicar todas as suas horas a dar conta de ler, ver e ouvir o que o mundo já produziu e está produzindo. Melhor ouvir o filósofo Merleau-Ponty: “Qualquer adolescente recusaria sem mais a filosofia se não se dissesse que ela nos ensina a sermos grandes viventes”. Ainda, não é possível filosofar sem ter antes vivido “um pouco”. É por isso que ele também diz: “Primeiro viver. Depois filosofar”.

Como coube tudo isso na aula? Porque o espaço do diálogo – por ser, talvez, a forma mais antiga da interatividade – produz todo tipo imprevisibilidade. E a imprevisibilidade é essencial para a vida (e a aula…) ser um pouco mais interessante.

Sobre a obsessão dos relacionamentos amorosos, prometi postar aqui um curta chamado Marry Me premiado nesse último ano em um importante festival da Austrália. Que vai se casar muito bem com o link mandado pelo Fábio do trailer do documentário Pretos contra Brancos.

Pois a nossa idéia aqui é unir coisas díspares e disparatadas. Jogar com os sentidos.

Resíduo

Publicado por: esporos em: Dezembro 2, 2008

De tudo fica um pouco.

Drummond estava certo.

Aliás, eu sempre penso que a poesia ilumina instantes de verdade. Instantes luminosos de verdade.

E, enquanto o ano acaba e eu provavelmente me despeço desse blog pelo menos pelos próximos 15 dias (“fim” de semestre: os trabalhos e as provas para corrigir, as notas para entregar, as planilhas para fechar), enfim, enquanto o ano acaba assistam à esse belíssimo vídeo dirigido por Luis Liotti, aluno do curso de Cinema da FAAP.

Fim de ano. “Fim”. Sempre perto do início do outro.

Porque enquanto o ano acaba,  o amor acaba, o ódio também acaba, o mundo acaba e alguns curadores nos oferecem o vazio de suas idéias, há gente ainda tentando se salvar pela Arte: Pinta a tela, pinta a pele, rasga a partitura, toca a partitura, espalha a tinta, escreve, escreve, dirige, e dança e ri e chora, toca o outro e se toca. Mas é preciso suportar o silêncio, pois aprendi esses dias de um amigo poeta – Frederico Barbosa citando outra poeta – que não vivemos mais em tempos em que as paredes têm ouvidos, mas em tempos em que os ouvidos é que têm paredes e aí… não adianta gritar.

Eu ouço os “Resíduos”. Fico com eles.

Expectativa e frustração: arte multimídia

Publicado por: esporos em: Dezembro 1, 2008

Dentro da proposta deste semestre de visitas às exposições, recebi de Guilherme Peres, aluno do curso de Cinema, um texto/ensaio/depoimento muito sincero a respeito de sua visita ao MIS. Acredito que traz um sentimento comum a todos e olha que Guilherme não postula nenhuma volta ao passado. De mais interessante, acredito que seu texto tem uma não submissão ao discurso de autoridade e, ao mesmo tempo, um desejo de sentir, de entender, de ouvir, de saber “qualé”. Sugiro também a leitura do texto de Márcia Tiburi no seu blog PinkPunk (link ao lado) sobre a desolação que sentiu ao visitar a Bienal.

Compartilho, ao meu próprio modo, dessas idéias. Mas compartilho, sobretudo, da busca dos sentidos e dos sentires. Segue o texto do Guilherme:

A arte multimídia está aí, e parece que veio pra ficar. O problema é que as técnicas são muito recentes e a produção bastante variada se considerarmos o tempo de vida desse novo meio expressivo. Será?

 

Acredito que na verdade existe uma esquizofrenia moderna, uma vontade criadora de trilhar não outro se não o solitário caminho do novo (‘esquizofrenia’ parece forçado, até inadequado, mas sigamos). É a doutrina do noticiário, a religião plástica que coloca para o artista o dever-ser inovador, nunca diluidor ou mestre. Essa intenção punge nos artistas contemporâneos. É inegável, basta voltarmo-nos para os salões, ler notas de curadoria; enfim, abrir os olhos para o que a produção artística tem arranjado na última década.

 

Vou falar de mim, de um pensamento generalista e preconceituoso…

 

O problema reside justamente no que fundamenta a arte multimeio: ela se revela quase unicamente como metalingüística. Não seria exagero dizer que os temas em Giotto não eram apenas religiosos; seu mote central era justamente a perspectiva, seu assunto (sobre o que pintava) talvez fosse a própria inovação técnica, o fascínio pelo novo material expressivo. O mesmo acontece com nossos modernos, nossos corajosos artistas da famigerada “instalação”, ou simplesmente aqueles que decidem juntar uma projeção em movimento, uma pintura estática e um áudio que não compõe com o resto. No fim, ela [a obra] parece falar consigo mesma (mas que arte mais ególatra!) e não diretamente com a pessoa que a contempla. Daí surge um paradoxo: não era declaradamente a intenção arte contemporânea ir ao encontro do expectador, fazendo-o tocar, andar por, entrar em um contato profundo com a obra? Em muitos casos não nos resta nem a beleza num sentido provinciano. Mesmo no puro prazer estético, não estamos vibrando verdadeiramente junto a nossa arte de exposição.

 

Convenhamos… Nada mais chato que lançar um olhar oblíquo (fazendo as honras heideggerianas, topografia filosófica que os ‘conceitualistas’ tanto gostam), um percorrer e revisitar de nosso repertório que tangencie a parte mais sutil da obra moderna (pós-moderna soaria universitário?). Parece que ela nos joga ao cosmo, ao infinito descarnado, mas é tudo mentira. Estamos parados, não saímos do lugar que nos cabe: mantemos distância segura e auto-instituída da obra interativa. É no ponto de partida. É lá que as obras estão e pra onde nos remete. Vemos obras bastante distintas entre si. Será mesmo? Vejamos…

 

A exposição emergência!, tão comentada por ocasião da sacada do artista plástico lusitano Leonel Moura, me deixou realmente intrigado. Foi de graça – o que é maravilhoso quando se é estudante e caiçara como eu – e esteve sitiada no Itaú Cultural, que eu adoro. Por que será que o robozinho action painter RAP causou tanta comoção (action painter? Tá, conta outra!)? Acredito que é reflexo de um sentimento que temos ao entrar em qualquer espaço que se anuncia de antemão como ultra-moderno. O que Leonel fez, para mim, foi sacudir o cenário da crítica de arte, tirar o pó do pensamento nada judicioso que acredita que falar mal é Cult - uma dica pessoal, fale mal da exposição X numa roda de discussão; você pode até não ser o centro das atenções, mas com certeza não será atacado pelo Adorno que salta em todos quando queremos comentar de qualquer produção cultural da atualidade. Lukács que me perdoe, mas a arte moderna não é meramente decorativa. O que ocorre nesses tempos de “arte-cabeça” é que estamos cansados da magnífica interatividade, e isso é um fato. Ela mal nasceu e já é enfadonha. A religião plástica do século XXI! É tão místico ser interativo!

 

Tenho preguiça para a arte moderna (falou pra não usar “argumento de autoridade”? Tá aí. Vou chamar de moderna mesmo!). Não digo isso imbuído dum saudosismo por aquilo que um crasso chamaria de verdadeira arte, ou a partir de doutrinas que fazem o trabalho sujo por mim: perceber o todo igual, o homogêneo na produção estética global. É mais. Acredito na arte de nosso período, mas espero mais dela. O tempo deve decantar as idéias, fazer a nossa arte pensar em interatividade real (como eu já disse, parece que a cobra pica a própria cauda, dialoga apenas consigo mesma; sua interatividade não existe). Acho que me desaponto justamente pela expectativa…

 

Entro na exposição; Deslumbro-me pela disposição da recepção, pelo teor de modernidade da instalação, que constitui, afinal, as bases do local expositivo; Sinto-me verdadeiramente arrebatado pela quantidade de branco e cores primárias laqueadas que os panfletos, fichas técnicas e a própria “ante-sala” exibem pomposas; Acredito no que o material de divulgação sugestiona sobre o conjunto exposto (seria ingenuidade?); Caminho ligeiro até a porta da galeria e cruzo os dedos para ser surpreendido.

 

Talvez a esperança de ser surpreendido seja o traço que define o receptor de nosso tempo. Queremos algo totalmente novo, senão não tem graça. Se esse for o seu caso, não vá ao MIS, ou melhor, à exposição I/legítimo (é apenas minha opinião). Você verá objetos dispostos à revelia, caderninhos explicativos espalhados pelas salas, telas de LCD aos montes, vídeos cheios de ruídos e informação superposta, obras dialógicas mostrando que fizeram o dever de casa, entrevistas em áudio, paredes pintadas e a tal da interatividade, essa desconhecida que pede passagem. Tudo isso, toda essa atualidade “hypada” (que medo de usar, mesmo que ironicamente, a palavra “vanguarda”!) nos prepara para a recepção do hiper-novo. Somos conduzidos a esperar em toda a exposição uma nova quebra no conceito Arte, uma revolução tão inovadora e sensacional que, se de fato acontecesse, estaria torcendo nos quatro cantos do mundo o que entendemos por arte de maneira tão constante que nem valeria à pena utilizarmos o termo (ele perderia o significado, a razão de ser enquanto palavra). Mas a arte atua por meios quase autônomos: sabe que, para sobreviver à nova era, tem de estar em constante atualização, ser flexível o suficiente inclusive para ver-se como pura técnica novamente.

 

Chocante, nessa nova condição, seria entrar no MoMA ou num Tate Modern da vida e ver um quadro que tenha por fim unicamente confesso a técnica. Mas não é minha intenção discutir o novo escopo da arte, isso já foi feito e não acho de verdade que leve a lugar nenhum…

 

Pode ser que o quadro não seja mesmo o suporte do nosso tempo, e nem deve ser… Está na hora de repensarmos o que a Arte atual nos traz e, mais que tudo, o que devemos esperar dela. A decepção nunca foi tão anti-artística…

A Alma das Coisas

Publicado por: esporos em: Novembro 27, 2008

Escrevi um artigo para a Revista da Facom, no. 20. Nele, analiso duas obras de Guto Lacaz, artista que gosto muito. Aqui, um trecho da reflexão.

 

Auditório para questões delicadas “naufragou” no dia seguinte à sua inauguração como anunciou matéria da Folha de S. Paulo dois dias depois. A notícia com foto é reproduzida no site do artista que contém vasta documentação do seu trabalho. Um vídeo sobre a montagem da obra mostra ainda as dificuldades técnicas e de projeto a serem superadas para Lacaz conseguir finalmente “apoiar” na superfície da água e no centro do lago um auditório de cadeiras pretas, daquelas finas de escritório, exibidas em toda a sua elegância nessa situação surpreendente.

Eu não tive a felicidade de contemplar essa obra in loco. Ainda assim as imagens dela sempre me comoveram. A composição é de uma delicadeza e insustentabilidade que mesmo saber de todos os procedimentos técnicos que permitem tal feito na água não diminui o conflito das sensações diante do contraditório provocado pela imagem.

Não consigo olhar para o postal daquelas cadeiras sem pensar na fragilidade das relações humanas, na sua quase impossibilidade. É nesse sentido uma imagem silenciosa – mesmo que todas as imagens sejam silenciosas a seu próprio modo – o que mais seria necessário “explicar” diante dela? Que almas ou pessoas conseguiriam sentar ali com a leveza e a delicadeza necessárias para não afundarem e se afogarem no desequilíbrio do peso de seus corpos? Ou será que o equilíbrio só é possível na ausência? Aquelas cadeiras, sendo cadeiras, nos convidam a sentar nelas. Seu “chão” improvável, contudo, nos adverte do risco da empreitada. Serei “leve” o suficiente? O Auditório para questões delicadas olha-me de volta como a denunciar a lista de todas as questões delicadas prontas a naufragar diante da mínima indelicadeza. O “naufrágio” da obra no primeiro dia pode ser lido à distância como acaso poético de fragilidade e esperança. A imagem das cadeiras encalhadas e o fracasso do intento requerendo do artista enorme esforço para dar-lhes a sustentabilidade desejada. Esforço recompensado pela imagem do frágil equilíbrio que se sustentou durante meses no lago do Ibirapuera para a felicidade contemplativa de seus visitantes.

cadeiras1

Miragem

Publicado por: esporos em: Novembro 27, 2008

Há dias,

noites

brancas.

Nevoeiro

de pensamento:

multidão

de sentidos.

Névoa branca

incompreensível.

Só.

É tudo.

Nada

pede passagem.

A vida

passa:

miragem.

Eu conto

as horas.

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Poema Infinito

  • Nascida do acaso de um encontro nascido dos acasos de tantos outros encontros. Fruto das escolhas alheias descobre-se tentando descobrir-se. 3 days ago
  • Você pensa não ter saída. Não sabe o próximo passo, o próximo verso. Compasso de espera. Música atonal. Sol inverso. Vida movida pelo acaso. 1 week ago
  • Decifra-me ou devoro-te. Enigma do tempo, da poesia. De ser aquilo que é. Decifro-te e devoro-te. Dúvida. Dívida. Dádiva: O enigma de viver. 1 week ago
  • A menina me diz não entender a poesia, as palavras. (É preciso tempo). Jogo dos sentidos: Poesia. (A vida). Tempo. (Nada é preciso). Enigma. 2 weeks ago
  • Porque quero sentir, não tenho pressa. Na cidade a primavera demora a florir. Eu termino. O infinito não. Eu passo. O infinito fica. Poesio. 3 weeks ago

Ramificações

 

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