“Por que a vida nunca é como a gente sonha e planeja?
Por que o tempo é tão implacável, roubando-nos as oportunidades, se não somos suficientemente rápidos para agarrá-las logo?
Por que assusta tanto chegar aos sessenta, quando um dia se teve dezesseis anos, e se acreditava que o tempo era interminável? Como não descobrimos que o tempo se movimenta com crescente velocidade e destrói tudo o que pensávamos poder deixar para o futuro?”
Mutações. Cosac, 2008.
Quem quer que tenha encontrado Liv Ullman na palestra da Faap não reconheceria nela imediatamente essas palavras. Seu bate-papo com os alunos foi de uma pessoa que se recusa a habitar o personagem de celebridade e cultivar a idolatria de si mesma. Pelo contrário, seu humor, leveza e sinceridade pareciam insistir na “pessoa comum”. Seu livro é também assim: de uma sinceridade desconcertante, num esforço constante de evitar a auto-piedade, assumir as “culpas” auto-atribuídas e travar o embate com a sedução proporcionada pela sua história. Mas é, sobretudo, a história de uma pessoa como todas as outras, como quando fala da sua infelicidade de adolescente:
“As garotas renegadas da minha geração.
E jamais perceberam que seu destino era igual ao de milhares de mulheres, adolescentes ou adultas, no mundo inteiro. Meninas de treze anos convencidas de que passariam o resto da vida ‘renegadas’. Para cada uma delas, uma experiência que parecia só sua.”
É assim que cada um vive sua dor, sua alegria e os seus amores: como se fossem os únicos no mundo. Porque, claro, cada indivíduo tem a sua própria história ela lhe será/parecerá sempre única. E, ao mesmo tempo, igual. Na experiência da vida, “único” e “igual” não se contradizem.
“Mesmo” em se tratando de Liv Ullman. Comum. Incomum.