Nelson Leirner, Ocupação

Nelson Leirner, O porco, 1966.

Nelson Leirner, O porco, 1966.

porco empalhado em engradado de madeira
83 x 159 x 62 cm
Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo/Brasil
Registro fotográfico Romulo Fialdini

Fonte: Enciclopédia das Artes

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O Instituto Itaú Cultural inaugurou no último dia 28 de maio a exposição “Ocupação“, com obras inéditas e quatro consideradas fundamentais na trajetória de Nelson Leirner, como “O Porco”, de 1966.

É uma oportunidade ótima para se confrontar com a experiência contemporânea da Arte desde seus gestos mais “pioneiros”. Particularmente, as obras de Leirner me fazem ter diante do badalado Damien Hirst a sensação de dejá-vù.

Há ainda muitas outras coisas que essas obras me fazem pensar. Quem sabe eu comento em outra hora…

Além da exposição, o Instituto fez um interessantíssimo hot-site com imagens da montagem de Ocupação, obras e entrevistas com artistas que foram seus ex-alunos na FAAP, onde Leirner lecionou por 20 anos.

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Exposição Ocupação Nelson Leirner

Itaú Cultural | Avenida Paulista 149 – Paraíso – São Paulo SP [próximo à estação Brigadeiro do metrô]

quinta 28 de maio a domingo 28 de junho 2009
terça a sexta 10h às 21h
sábado domingo feriado 10h às 19h

entrada franca

informações 11 2168 1777

atendimento educativo
visitas espontâneas
grupos até 22 pessoas
duração aproximada 60 minutos
terça a domingo e feriado [diversos horários]

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Vik Muniz

 

Vik Muniz, da série "Crianças de Açúcar", 1996

Vik Muniz, da série "Crianças de Açúcar", 1996

Por:

  • Marco Lafer Amorim
  • Marcelo Lee
  • Rafael Campedelli
  • Gustavo Moraes

Ao entrar na sala principal do MASP que, desde o dia 24 de Abril, cede espaço à retrospectiva da obra do artista plástico brasileiro Vik Muniz, o visitante vê-se induzido a sintonizar com o projeto estético-estilístico de caráter virtuoso e megalomaníaco de Vik – com as desculpas pelo uso desse adjetivo menor, a megalomania, retirado de um repertório concernente ao senso comum barato, mesmo que, por meio de um olhar mais apurado, seu uso justifique-se visto que quando se apela ao deslumbramento técnico a resposta imediata vem mais do arregalar dos olhos das massas e menos da leitura de um possível discurso poético-semântico, ou, poético-sintático.

Vik, ao longo de sua carreira cria uma extensa produção cujo princípio compositivo consiste em séries fotográficas de diversas assemblages (colagens e reunião de matérias primas diversas) feitas através de materiais que trazem, por sua vez, um segundo discurso quando contrastados ou aproximados ao conteúdo que exprimem ao serem fotografados, bidimencionalizados em sua nova forma.

“Quis criar imagens que permitissem ao observador leituras múltiplas e que ele se tornasse consciente de sua participação”. (Vik Muniz)

Tomemos como exemplo a série de retratos de pessoas negras que Vik confecciona utilizando-se do açúcar como matéria prima, discursando, assim, sobre a composição de nossa imagem, de nosso retrato,  a partir daquilo que nós mesmos engendramos, visto que a produção dos descendentes das pessoas retratadas, período da escravidão, era majoritariamente o açúcar. Assim, Vik parece dizer que nossa imagem vem sendo mediada pelos produtos, ou pelas idéias, por nós, ou por nossos pares, concebidos com os olhos do mundo.

 

Da série "Lixo"

Da série "Lixo"

O discurso entre a matéria que constitui a figura e a figura por ela desenhada é retomada em diversas outras séries como quando Vik reproduz imagens bélicas à partir de soldadinhos de plástico, ou quando retrata personalidades predominantes na mídia e da elite social utilizando-se de diamantes e caviar. Outro exemplo, um dos mais impressionantes no quesito da virtuosidade, é a confecção de imagens de trabalhadores no lixão através dos objetos por eles mesmos recolhidos.

Utilizando-se destes objetos do universo de consumo para constituir suas montagens, em planos plongées absolutos, Vik incorpora o universo do Kitsch, tangenciando assim pontos análogos à proposta estético-estilística do tropicalismo, principalmente no que diz respeito às manifestações no campo do cinema e da música –  afinal, tanto o disco “Tropicália ou Panis et Circencis”, quanto o filme “O Bandido da Luz Vermelha”, trazem essa mesma incorporação. Assim, em primeira análise, o discurso por sobre o material e a imagem por ele formada é interessante, porém, este perde sua complexidade quando comparado com dois dos movimentos mais revolucionários do âmbito artístico: o Dadaísmo e a Pop Art. Em uma brevíssima consideração podemos postar que o primeiro trouxe ao cenário artístico do início do século XX o choq, a quebra no olhar, na percepção e na própria idéia consagrada de objeto arte. Posteriormente, o Pop vem como que para institucionalizar o choq Dadá, educando o olhar popular para compreender suas colagens, seus objects trouvés e seus ready-mades como objeto arte e mais, utilizá-los como instrumento de celebração da cultura americana. Na sombra de tudo isso, Vik parece colocar-se como um artista anacrônico, cuja proposta dificilmente transcende uma interessante experiência estética, logo, alcunhado por alguns críticos contemporâneos como dentro do subgênero artístico denominado “Fun”.

Da série "Montinhos"

Da série "Montinhos"

Tomemos como exemplo sua série “Montinhos” na qual ele reúne diversos objetos de pequena dimensão que não possuem nenhum ponto de intersecção tanto na forma quanto na função. A obra parece, pois, ser uma releitura rasa, ao menos competentemente estetizada em belas reproduções a partir de fotografias em grande formato, das assemblages de Kurt Schwitters, no movimento dadaísta, e mesmo das de Richard Hamilton e Rauschemberg, no movimento Pop, nas quais a aproximação de objetos díspares parecia apresentar a idéia de que todos eles reunidos, colados antes nas assemblages, agora nos montinhos, tornam-se análogos devido a reificação no mundo da práxis mercantil. Mundo no qual o universal concreto, ou seja, em linhas gerais, tudo, é mercadoria.

Kurt Schwitters, "Construções para Damas Nobres", 1919.

Kurt Schwitters, "Construções para Damas Nobres", 1919.

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Da série "Nuvens", 2001.

Da série "Nuvens", 2001.

Um dos trabalhos apresentados na retrospectiva, porém, destaca-se profundamente ao apresentar uma reflexão semiótica não somente notável, mas também, demasiado poética. Em “Nuvens”, Vik Muniz, tirou uma série de fotografias em formato skyline da cidade de Nova York, onde mora desde 1983, nas quais o céu limpo apresentava apenas uma única nuvem, esta, porém, produzida pela fumaça de uma pequena aeronave. As nuvens representadas pelos rastros do piloto remetiam não às nuvens realistas, naturalmente amorfas, mas ao signo visual, convencionalmente institucionalizado no mundo da comunicação, da nuvem. Assim, o signo parece vir para substituir o próprio objeto que o criou. Vik recria, pois, um movimento muito típico da chamada Pós Modernidade caracterizada, dentre outros aspectos, pelo gradual caráter virtual do mundo sensível.

(nota: Vale postar que a constituição de imagens bidimensionais por meio da reunião de objetos tridimensionais confere à obra de Vik um caráter cinematográfico, tendo em vista que o procedimento de bidimencionalização do mundo em três dimensões configura-se presente em ambas. Isso é reforçado com as constantes referencias que o artista trás do principio compositivo cinematográfico, da matéria prima da imagem, tanto o grão do nitrato de prata da película, quanto os pixels do cinema digital).

Da esq. para a dir.: Marco Lafer, Rafael Campedelli, Marcelo Lee e Gustavo Moraes

Da esq. para a dir.: Marco Lafer, Rafael Campedelli, Marcelo Lee e Gustavo Moraes

 Nota do blog: O site de Vik Muniz traz farto material sobre o artista, incluindo vídeos sobre o processo criativo de várias obras.

Confira especialmente no link Gallery, ano de 1996, o “documentário”

Worst Possible Illusion: The Curiosity Cabinet of Vik Muniz
Mixed Green Production (54 min.)
Director and Producer: Anne-Marie Russel

Outros Continentes

 

Por Cauê Alves

 

Outros Continentes

Outros Continentes - de Geórgia Kyriakakis

 

A cartografia mais difundida no mundo é a cartografia marítima de padrão europeu, em que o norte é representado pela Estrela Polar, astro apenas visível no hemisfério norte. É dela que se derivaram os padrões de mapa mais conhecidos. Mas como a Terra é esférica, poderíamos representar o planeta com qualquer dos continentes no centro. Toda representação cartográfica pressupõem uma hierarquização entre partes inferiores e superiores, envolvendo visões geopolíticas. O trabalho de Geórgia Kyriakakis, sem qualquer pretensão de uma representação possível das relações entre os continentes, desconstrói não apenas a falsa neutralidade do mapa-múndi, mas a própria ordem que lhe estrutura. As relações entre as extensões de terra são estabelecidas a partir de alinhamentos e de aproximações imaginárias.

Na verdade, a própria definição de continente é colocada em xeque pelo seu trabalho. O que seria uma grande porção de terra cercada por água é aqui constituído por desenhos de bolhas de sabão sobre um fundo negro. O aspecto frágil e provisório da crosta terrestre é acentuado pela instabilidade característica das bolhas de sabão. As bolhas, espécie de película líquida preenchidas de ar, apenas se formam a partir de movimentos como o das ondas do mar. Não por acaso, os mapas acompanham horizontes marítimos alinhados. A linha que surge no horizonte, uma linha limite, que em última instância é circular, marca o encontro do céu com o mar.

Mas as bolhas de Outros Continentes, 2009 são antes de tudo desenho. Como já foi observado por Tadeu Chiarelli, a linha da artista sempre tendeu a se expandir para outros campos, algumas vezes tomando o espaço tridimensional. É por isso que o trabalho, embora tenha partido do desenho, foi fotografado em alta definição, impresso, laminado e adesivado, tornando-se uma espécie de híbrido entre estampa, fotografia e o próprio desenho. Não há um original e sim um desenho matriz. Mas o trabalho não é a matriz e sim a sua reprodução técnica, montada como um quebra-cabeça de peças que se encaixam.

O percurso de Geórgia Kyriakakis possui uma produção variada, com a utilização de suportes, materiais e meios dos mais diversos, mas sempre com trabalhos com relações coerentes entre si. O que não quer dizer que exista em sua produção um desenvolvimento contínuo e homogêneo. Como a artista jamais abdicou da experimentação e da descoberta, com todos os avanços e recuos necessários, não poderíamos supor que os trabalhos atuais são apenas conseqüências inevitáveis dos anteriores. Se por um lado eles podem ser relacionados, por outro são completamente distintos.

A série Continentes, 2002, de grafite sobre papel vegetal colado em fotografias, trazia uma transparência, uma espécie de membrana, análoga ao princípio da bolha. Do mesmo modo, alinhamentos horizontais já apareceram na série Estáveis, 2002, e em Helenas de óleo, 2002. Talvez até Atratores Estranhos, 1999, já tivessem uma clara relação com o presente trabalho, uma vez que linhas orgânicas e vivas surgiam entre a fuligem e o vidro. Os vazios e o jogo entre continente e conteúdo, como nessas imagens de bolhas sobre fundo negro, são recorrentes. A ausência e o oco dos seus trabalhos com fogo, como Isopor, 1997, reaparecem agora de um modo mais etéreo, com uma ênfase na superfície.

            Entretanto, Outros Continentes se mostra sobre duas perspectivas diferentes: a visão de sobrevôo própria dos mapas, cuja função é a localização num todo maior; e a visão da paisagem, ponto de vista natural e espontâneo do homem sobre o mundo. É nessa segunda perspectiva que surge o horizonte e com ele uma espécie de desorientação primordial. Mas na nova e provisória configuração de continentes proposta por Geórgia Kyriakakis, o desnorteamento não poderia estar isento de uma concepção política e também irônica do mundo.

 

 

Exposição "Outros Continentes", na Galeria Raquel Arnaud

Exposição "Outros Continentes", na Galeria Raquel Arnaud

 

 

Galeria Raquel Arnaud

Rua Arthur de Azevedo, 401 – tel.: 3083-6322

Segunda a sexta: das 10h às 19h

Sábado das 12h às 16h

Expectativa e frustração: arte multimídia

Dentro da proposta deste semestre de visitas às exposições, recebi de Guilherme Peres, aluno do curso de Cinema, um texto/ensaio/depoimento muito sincero a respeito de sua visita ao MIS. Acredito que traz um sentimento comum a todos e olha que Guilherme não postula nenhuma volta ao passado. De mais interessante, acredito que seu texto tem uma não submissão ao discurso de autoridade e, ao mesmo tempo, um desejo de sentir, de entender, de ouvir, de saber “qualé”. Sugiro também a leitura do texto de Márcia Tiburi no seu blog PinkPunk (link ao lado) sobre a desolação que sentiu ao visitar a Bienal.

Compartilho, ao meu próprio modo, dessas idéias. Mas compartilho, sobretudo, da busca dos sentidos e dos sentires. Segue o texto do Guilherme:

A arte multimídia está aí, e parece que veio pra ficar. O problema é que as técnicas são muito recentes e a produção bastante variada se considerarmos o tempo de vida desse novo meio expressivo. Será?

 

Acredito que na verdade existe uma esquizofrenia moderna, uma vontade criadora de trilhar não outro se não o solitário caminho do novo (‘esquizofrenia’ parece forçado, até inadequado, mas sigamos). É a doutrina do noticiário, a religião plástica que coloca para o artista o dever-ser inovador, nunca diluidor ou mestre. Essa intenção punge nos artistas contemporâneos. É inegável, basta voltarmo-nos para os salões, ler notas de curadoria; enfim, abrir os olhos para o que a produção artística tem arranjado na última década.

 

Vou falar de mim, de um pensamento generalista e preconceituoso…

 

O problema reside justamente no que fundamenta a arte multimeio: ela se revela quase unicamente como metalingüística. Não seria exagero dizer que os temas em Giotto não eram apenas religiosos; seu mote central era justamente a perspectiva, seu assunto (sobre o que pintava) talvez fosse a própria inovação técnica, o fascínio pelo novo material expressivo. O mesmo acontece com nossos modernos, nossos corajosos artistas da famigerada “instalação”, ou simplesmente aqueles que decidem juntar uma projeção em movimento, uma pintura estática e um áudio que não compõe com o resto. No fim, ela [a obra] parece falar consigo mesma (mas que arte mais ególatra!) e não diretamente com a pessoa que a contempla. Daí surge um paradoxo: não era declaradamente a intenção arte contemporânea ir ao encontro do expectador, fazendo-o tocar, andar por, entrar em um contato profundo com a obra? Em muitos casos não nos resta nem a beleza num sentido provinciano. Mesmo no puro prazer estético, não estamos vibrando verdadeiramente junto a nossa arte de exposição.

 

Convenhamos… Nada mais chato que lançar um olhar oblíquo (fazendo as honras heideggerianas, topografia filosófica que os ‘conceitualistas’ tanto gostam), um percorrer e revisitar de nosso repertório que tangencie a parte mais sutil da obra moderna (pós-moderna soaria universitário?). Parece que ela nos joga ao cosmo, ao infinito descarnado, mas é tudo mentira. Estamos parados, não saímos do lugar que nos cabe: mantemos distância segura e auto-instituída da obra interativa. É no ponto de partida. É lá que as obras estão e pra onde nos remete. Vemos obras bastante distintas entre si. Será mesmo? Vejamos…

 

A exposição emergência!, tão comentada por ocasião da sacada do artista plástico lusitano Leonel Moura, me deixou realmente intrigado. Foi de graça – o que é maravilhoso quando se é estudante e caiçara como eu – e esteve sitiada no Itaú Cultural, que eu adoro. Por que será que o robozinho action painter RAP causou tanta comoção (action painter? Tá, conta outra!)? Acredito que é reflexo de um sentimento que temos ao entrar em qualquer espaço que se anuncia de antemão como ultra-moderno. O que Leonel fez, para mim, foi sacudir o cenário da crítica de arte, tirar o pó do pensamento nada judicioso que acredita que falar mal é Cult – uma dica pessoal, fale mal da exposição X numa roda de discussão; você pode até não ser o centro das atenções, mas com certeza não será atacado pelo Adorno que salta em todos quando queremos comentar de qualquer produção cultural da atualidade. Lukács que me perdoe, mas a arte moderna não é meramente decorativa. O que ocorre nesses tempos de “arte-cabeça” é que estamos cansados da magnífica interatividade, e isso é um fato. Ela mal nasceu e já é enfadonha. A religião plástica do século XXI! É tão místico ser interativo!

 

Tenho preguiça para a arte moderna (falou pra não usar “argumento de autoridade”? Tá aí. Vou chamar de moderna mesmo!). Não digo isso imbuído dum saudosismo por aquilo que um crasso chamaria de verdadeira arte, ou a partir de doutrinas que fazem o trabalho sujo por mim: perceber o todo igual, o homogêneo na produção estética global. É mais. Acredito na arte de nosso período, mas espero mais dela. O tempo deve decantar as idéias, fazer a nossa arte pensar em interatividade real (como eu já disse, parece que a cobra pica a própria cauda, dialoga apenas consigo mesma; sua interatividade não existe). Acho que me desaponto justamente pela expectativa…

 

Entro na exposição; Deslumbro-me pela disposição da recepção, pelo teor de modernidade da instalação, que constitui, afinal, as bases do local expositivo; Sinto-me verdadeiramente arrebatado pela quantidade de branco e cores primárias laqueadas que os panfletos, fichas técnicas e a própria “ante-sala” exibem pomposas; Acredito no que o material de divulgação sugestiona sobre o conjunto exposto (seria ingenuidade?); Caminho ligeiro até a porta da galeria e cruzo os dedos para ser surpreendido.

 

Talvez a esperança de ser surpreendido seja o traço que define o receptor de nosso tempo. Queremos algo totalmente novo, senão não tem graça. Se esse for o seu caso, não vá ao MIS, ou melhor, à exposição I/legítimo (é apenas minha opinião). Você verá objetos dispostos à revelia, caderninhos explicativos espalhados pelas salas, telas de LCD aos montes, vídeos cheios de ruídos e informação superposta, obras dialógicas mostrando que fizeram o dever de casa, entrevistas em áudio, paredes pintadas e a tal da interatividade, essa desconhecida que pede passagem. Tudo isso, toda essa atualidade “hypada” (que medo de usar, mesmo que ironicamente, a palavra “vanguarda”!) nos prepara para a recepção do hiper-novo. Somos conduzidos a esperar em toda a exposição uma nova quebra no conceito Arte, uma revolução tão inovadora e sensacional que, se de fato acontecesse, estaria torcendo nos quatro cantos do mundo o que entendemos por arte de maneira tão constante que nem valeria à pena utilizarmos o termo (ele perderia o significado, a razão de ser enquanto palavra). Mas a arte atua por meios quase autônomos: sabe que, para sobreviver à nova era, tem de estar em constante atualização, ser flexível o suficiente inclusive para ver-se como pura técnica novamente.

 

Chocante, nessa nova condição, seria entrar no MoMA ou num Tate Modern da vida e ver um quadro que tenha por fim unicamente confesso a técnica. Mas não é minha intenção discutir o novo escopo da arte, isso já foi feito e não acho de verdade que leve a lugar nenhum…

 

Pode ser que o quadro não seja mesmo o suporte do nosso tempo, e nem deve ser… Está na hora de repensarmos o que a Arte atual nos traz e, mais que tudo, o que devemos esperar dela. A decepção nunca foi tão anti-artística…

Mais Machado de Assis

Ontem fez 100 anos que o escritor carioca morreu no número 18, da rua Cosme Velho no Rio de Janeiro. E o ciúme de Bentinho tornou a traição (ou não) de Capitolina, vulgo Capitu, no maior mistério da literatura brasileira, como afirma o livroclip no final desse post.

Lembro-me do escritor Modesto Carone (escritor também, mas mais conhecido por ter traduzido toda a obra do Kafka para a editora Companhia das Letras) assinalar, numa palestra da Semana da Comunicação da FAAAP no ano passado, que não devíamos nunca esquecer do lugar do narrador: o próprio Dom Casmurro. É dele o ponto de vista. Não de Capitu. Como decidirmos sobre a traição a partir de um olhar enciumado?

Se você não leu esse clássico, sinta-se feliz: a experiência de descobri-lo, seja em que idade for (em alguns casos, quanto mais tarde, melhor), é de uma delîcia invejável. Desse modo vejo crescer meu desejo de ler minha também crescente, infinita e interminável lista dos livros que ainda não li.

A notícia ainda melhor sobre Machado é que sua obra está sob domínio público. Sua obra completa pode ser encontrada no site do Ministério da Educação. A Folha on-line também publicou um especial sobre o autor.

Além disso, ontem o Museu da Língua Portuguesa inaugurou uma exposição sobre o mestre (dica para as visitas para as aulas de Estética). O interessante dessa exposição é que ela “descanoniza” o autor e tem a proposta de pôr em relevo o prazer e a delícia de lê-lo. Eu não quero perder.

Serviço
“Machado de Assis: ‘mas este capítulo não é sério'”
Onde: Museu da Língua Portuguesa (pça. da Luz, s/nº. Tel.: 0/XX/11 3326-0775)
Quando: de 15/7 a 26/10, das 10h às 17h
Quanto: de terça a domingo, R$ 4. Estudantes pagam meia e a entrada é gratuita para crianças até 10 anos e pessoas com mais de 60 anos. Aos sábados, entrada gratuita.

O show O Dom do Ciúme (post abaixo) foi aberto com um “LivroClipe” a la Matrix “O maior mistério da Literatura Brasileira: Capitu traiu ou não Bentinho?”

Improvement: Van Gogh

O Esporos ainda está germinando e já vai se modificando. Estamos pesquisando sites de museus e outros assuntos relacionados à arte para indicá-los na categoria Pesquisa. Entre os primeiros sites indicados, chamo atenção ao do MoMa. Há uma exposição linda não só para quem pode “dar um pulinho” em New York…, podemos visitá-la por aqui. A exposição chama-se “Van Gogh e as cores da noite”.