Citação da citação

“‘Existe uma menina em mim que se recusa a morrer”, escreveu a autora dinamarquesa Tove Ditlevsen.

Eu vivo, me alegro, sofro, e estou sempre lutando para me tornar adulta. Mas todos os dias, porque alguma coisa que eu faço a afeta, ouço a voz da menina, lá dentro de mim. Ela, que há tantos anos era eu. Ou quem eu pensava que fosse.”

Liv Ullman, Mutações. São Paulo: Cosac, 2008.

A grandeza de Liv Ullman se revelou hoje em sua palestra na Faap na recusa à idolatria, na afirmação da “pessoa comum” que somos todos nós. Depois disso, comecei a ler o seu livro – narrativa sobre os seus personagens todos, “reais” e fictícios – com o maior interesse. E aí encontrei essa frase. Que queria que fosse minha. Que bem poderia ser minha. Que talvez seja de um monte de nós.

Rendição

Continuo farta.

Excedida

Uma palavra só:

Basta.

 

****

Cada

palavra

separada

mente.

 

É assim que começa.

Você se apaixona

por elas e elas

 o traem:

estão na boca de todos.

 

São todas fáceis,

oferecem-se a todos

os amantes.

A maioria destes

á-vidos:

gozo precoce.

Ingênuos,

(a)creditam nelas,

as palavras,

seu gozo fingido.

Palavras-mortas,

Inertes,

sem sentido.

 

Amante traído:

Você as ignora:

num silêncio eterno e terno.

A espera:

Elas a traem também.

Rendido,

procura palavras

para os seus silêncios.

Gozo sentido.