A Alma das Coisas

Escrevi um artigo para a Revista da Facom, no. 20. Nele, analiso duas obras de Guto Lacaz, artista que gosto muito. Aqui, um trecho da reflexão.

 

Auditório para questões delicadas “naufragou” no dia seguinte à sua inauguração como anunciou matéria da Folha de S. Paulo dois dias depois. A notícia com foto é reproduzida no site do artista que contém vasta documentação do seu trabalho. Um vídeo sobre a montagem da obra mostra ainda as dificuldades técnicas e de projeto a serem superadas para Lacaz conseguir finalmente “apoiar” na superfície da água e no centro do lago um auditório de cadeiras pretas, daquelas finas de escritório, exibidas em toda a sua elegância nessa situação surpreendente.

Eu não tive a felicidade de contemplar essa obra in loco. Ainda assim as imagens dela sempre me comoveram. A composição é de uma delicadeza e insustentabilidade que mesmo saber de todos os procedimentos técnicos que permitem tal feito na água não diminui o conflito das sensações diante do contraditório provocado pela imagem.

Não consigo olhar para o postal daquelas cadeiras sem pensar na fragilidade das relações humanas, na sua quase impossibilidade. É nesse sentido uma imagem silenciosa – mesmo que todas as imagens sejam silenciosas a seu próprio modo – o que mais seria necessário “explicar” diante dela? Que almas ou pessoas conseguiriam sentar ali com a leveza e a delicadeza necessárias para não afundarem e se afogarem no desequilíbrio do peso de seus corpos? Ou será que o equilíbrio só é possível na ausência? Aquelas cadeiras, sendo cadeiras, nos convidam a sentar nelas. Seu “chão” improvável, contudo, nos adverte do risco da empreitada. Serei “leve” o suficiente? O Auditório para questões delicadas olha-me de volta como a denunciar a lista de todas as questões delicadas prontas a naufragar diante da mínima indelicadeza. O “naufrágio” da obra no primeiro dia pode ser lido à distância como acaso poético de fragilidade e esperança. A imagem das cadeiras encalhadas e o fracasso do intento requerendo do artista enorme esforço para dar-lhes a sustentabilidade desejada. Esforço recompensado pela imagem do frágil equilíbrio que se sustentou durante meses no lago do Ibirapuera para a felicidade contemplativa de seus visitantes.

cadeiras1