Educação e Autonomia

Ontem foi o primeiro dia de aula na graduação.

Como eu gosto dos primeiros dias de aula! Os alunos novos. Expectativas remoçadas. A idéia de algo novo (re)começando. Sempre me traz as idéias de leveza e esperança.

Por isso sempre reflito e preparo com uma ansiedade típica de atriz em dia de estréia o meu texto pretendido para esse dia. Tento lembrar de frases bonitas e significativas. De citações importantes. De livros inesquecíveis. Com a esperança e o desejo de produzir ou ampliar uma abertura nas sensibilidades – mente, coração e ouvidos – para os textos e as idéias que deverão vir pouco a pouco durante o semestre. Com a declarada intenção de fazer as idéias tocarem e seduzirem para despertar a paixão do pensar. (Fernando Pessoa: “o que pensa em mim está sentindo”…)

Ontem foi, mais uma vez, o primeiro dia de aula. E foi muuuuuito legal. Adorei a conversa nas duas salas (H e F). É verdade: não havia muita gente. Poucos e bons. (Octavio Paz: “Nós, poucos, somos muitos”).

O tema de ontem e para essa semana: a Paidéiaa. Palavra em grego que quer dizer “educação”. Porém é comum os filósofos preferirem usar “paidea” ao invés da palavra “correspondente” em português. Pois, ao fazerem isso, querem deixar claro que estão se referindo à educação como os gregos a entendiam. Porque a idéia de educação dos gregos é tão diferente da nossa idéia de educação que, nesse sentido, paidéia não corresponde à palavra educação.

Façamos uma digressão antes de continuar o assunto: o tema “paidéia” foi introduzido como uma espécie de preãmbulo que seria o personagem principal da peça para explicar uma outra questão: o que é “Estética” e para que ela “serve”? Estas perguntas são especialmente comuns quando o público dessa disciplina é formado por alunos de Comunicação Social (Publicidade, Rádio e TV, Relações Públicas e Cinema).

Estética é uma filosofia da arte e é uma disciplina que compõe a grade do departamento de “Humanidades” – as disciplinas que têm, portanto, de alguma maneira, o humano como “objeto”.

Para que serve essa disciplina? Especialmente para um aluno de Publicidade ou Relações Públicas que têm uma atuação mais “de mercado”. O curso de Cinema talvez tenha mais afinidade com a idéia de discutir arte. Rádio e TV pode ficar a meio caminho, pois os alunos podem optar pela área de produção e administração dos mais variados produtos de TV e Rádio.

Pois é. Pareceria uma espécie de “luxo” (e à idéia de luxo está associada muitas vezes equivocadamente a noção de supérfluo) a proposição de um assunto tão complexo para alunos que não pretendem fazer “filosofia”. E o “pior”: estudam Sociologia, quando não querem ser cientistas sociais, História, quando não serão historiadores, Psicologia, quando não serão psicólogos e por aí vai… Na Faap, a grade de Humanidades corresponde praticamente à metade das disciplinas cursadas pelos alunos.

Isso tem um sentido: Num mundo dominado pela técnica e por sua cada vez mais veloz auto-superação não parece muito inteligente restringir o ensino à operação dessas. Com o atual estágio do desenvolvimento das técnicas é praticamente certo que as técnicas que dominam o mercado hoje não serão absolutamente as mesmas daqui a quatro anos – tempo médio que um aluno leva para fazer o ensino superior. É com um mundo complexo, em constante transformação que as pessoas terão de aprender a lidar. Para isso é necessário aprender a pensar. A criar soluções, a aprender de novo. E, embora os administradores burocratas adorem fórmulas, para isso não há fórmula. Aprende-se a pensar pensando. Decodificanto textos, filmes, quadros, signos. “Refletindo” sobre eles. Movimentando as idéias através da forma mais antiga de interatividade: o diálogo.

Essa forma do diálogo que deu nascimento na Grécia à filosofia e ao seu mais caro instrumento – a dialética. Uma idéia fundamentalmente bonita de que a diferença – a contradição colocada em jogo – melhora o pensamento. Mas que fique claro que duas ou mais pessoas concordando com a mesma idéia não constitui um “dia – logos”, ou seja, não há idéias diferentes conversando entre si. Há só a mesma idéia sendo repetida por duas pessoas. É um monólogo a duas vozes, na verdade.

Aliás, meu sobrinho de 12 anos fez uma charada ótima esses dias: Duas pessoas estão caminhando, cada uma carregando um pão. Elas se encontram e trocam esses pães. Quantos pães cada uma leva? Um somente, é óbvio. Duas pessoas estão caminhado. Cada uma carregando uma idéia. Elas se encontram e trocam essas idéias. Quantas idéias cada uma leva? (…) Simples, né? Cada uma leva duas idéias.

É isso que atrai na sala de aula: A possibilidade do diálogo. Do exercício da diferença. Da “prática” do pensamento que  leva cada um a pensar, como diz Kant, por si mesmo, no lugar de qualquer outro e de maneira consequente. Ou seja: assumir as próprias idéias, ser capaz de pensá-las a partir de um outro ponto de vista e em outras condições e, ainda, entender que você é responsável pelas idéias que tem e pelas ações que elas produzem. Seria isso o pensar de maneira “autônoma”.

Portanto, se eu consigo fechar o círculo, é para isso que “serve” a Estética. Como outras disciplinas das Humanidades, ela contribui para uma reflexão que intensifica o pensamento e a sensibilidade e pode nos ajudar a ser mais autônomos, como Kant queria. E faz isso por meio da Arte. Por entender que a Arte é uma das manifestações mais nobres do espírito humano. Do que há “de mais humano em nós”.

Para falar disso tudo, ontem nós falamos de Platão, da Alegoria da Caverna, de Aristóteles, de Mercado, da nossa obsessão pelo tema do relacionamento amoroso, do best-seller Comer, Rezar, Amar escrito por Elizabeth Gilbert, de futebol, do Garrincha, do livro sobre futebol do José Miguel Wisnik (Veneno Remédio), de um filme sobre jogo de futebol citado por ele que coloca pretos e brancos em times opostos porque também mencionamos o livro Homo Ludens, de Huizinga, que mostra como o homem “ritualiza” ludicamente suas mais variadas pulsões através dos ritos, dos jogos e da arte. Fábio que estava assistindo à aula já mandou me o link do trailer. Fábio, obrigada por interagir! Mais um filme na lista “Os filmes que ainda não vi e não posso deixar de ver”.

Ah, e ainda falamos da vastidão da cultura. Tipo: que não vai dar tempo de a gente ler, ver e ouvir todos os clássicos fundamentais da História da Filosofia, Literatura, Sociedade, Cinema, Séries de TV, Revista em Quadrinho, da Arte, da Ciência e do Conhecimento, da Medicina , da Computação, da Internet, das Novas Tecnologias etc etc.

Isso é desesperador. Mas é um alívio também. Ninguém vai ter tempo. E ninguém minimamente normal, interessante ou razoável acharia boa a idéia de se enfurnar num quarto trancado e dedicar todas as suas horas a dar conta de ler, ver e ouvir o que o mundo já produziu e está produzindo. Melhor ouvir o filósofo Merleau-Ponty: “Qualquer adolescente recusaria sem mais a filosofia se não se dissesse que ela nos ensina a sermos grandes viventes”. Ainda, não é possível filosofar sem ter antes vivido “um pouco”. É por isso que ele também diz: “Primeiro viver. Depois filosofar”.

Como coube tudo isso na aula? Porque o espaço do diálogo – por ser, talvez, a forma mais antiga da interatividade – produz todo tipo imprevisibilidade. E a imprevisibilidade é essencial para a vida (e a aula…) ser um pouco mais interessante.

Sobre a obsessão dos relacionamentos amorosos, prometi postar aqui um curta chamado Marry Me premiado nesse último ano em um importante festival da Austrália. Que vai se casar muito bem com o link mandado pelo Fábio do trailer do documentário Pretos contra Brancos.

Pois a nossa idéia aqui é unir coisas díspares e disparatadas. Jogar com os sentidos.