O tempo, as vontades e o twitter

M.C. Escher, Relatividade, 1953. Litografia

M.C. Escher, Relatividade, 1953. Litografia

Para ampliar o paradoxo do tempo:

Não é o tempo que me falta

Sou eu o tempo todo

tentando acomodar todas as minhas vontades:

Que não cabem, não sei, se dentro de mim

se dentro do tempo.

Há vontades que surgem como relâmpago,

Umas que passam e outras que passeiam,

As que dançam,

As que só se apresentam e vão embora.

Aquelas que voltam.

Um tanto que brigam.

Outro tanto que brincam.

Umas conversadeiras. Um tantinho bem acomodadas.

Um monte me pedindo atenção.

No meio dessa confusão

acaba de nascer mais uma:

Poemainfinito

Sigam

à vontade.

Atualização em 07/03/2010 para apresentar o @poemainfinito para os leitores do Cronópios.

Apropriei-me deste novo papel da tela luminosa do computador transformado em ancestral papiro cuja “página” rola e desenrola-se infinitamente em seu fluxo contínuo de pixels como na rede inocente criada para que respondêssemos “What’s happening?”. Responda! Ou melhor: twítte (do agora novo verbo surgido “twittar”).

Quis fazer alguma coisa com isso e pensei, então, na possibilidade de fazer um poema infinito. Lembrei-me de ter lido num texto uma vez uma idéia que me pareceu verdadeira e interessante sobre poesia em geral: é como se estivéssemos sempre escrevendo um único e infinito poema. Eu decidi experimentar possibilidades poéticas nesse espaço. Seria, no mínimo, uma brincadeira, um exercício, um descompromisso, alguma coisa a descobrir. Algo exposto, discreto, sozinho, mas possível também de ser descoberto, de aparecer e interromper a página de alguém sem aviso prévio nem hora marcada.

A “regra” do twitter é que cada tweet tenha no máximo 140 caracteres. Para brincar com ela adotei no @poemainfinito a regra de que cada tweet poema deveria ter os exatos 140 caracteres.

Uma regra como qualquer outra: Impõe uma extensão, talvez imponha um ritmo, impõe um limite, uma dificuldade que se traduz no exercício lúdico de procurar palavras, trocá-las, inverter de lugar, alterar a pontuação até zerar o limite dos caracteres e encontrar alguma idéia ou luminiscência que os valesse a “pena” ou o píxel. Se não, simplesmente apagá-los e tentar outro dia.

Penso em cada tweet-poema como um fragmento independente de todos os outros. Invejando os fragmentos de Novalis.  Mas os penso também num caudaloso fluxo de palavras que se continuam para sempre. Agora pensando nas Galáxias de Haroldo de Campos.

O “primeiro” tweet-poema é de 20 de maio de 2009. A partir dele, é possível perceber o modo como tenta se apresentar o fluxo de sua continuidade, às vezes como um rio reto, outras sinuoso, em alguns momentos parecendo se interromper numa queda d’água. No fundo, o mesmo rio – que não é sempre o mesmo – , mas continua e prossegue em seu curso de rio.

O sumiço no @poemainfinito

Atualização em 22/08/2010 para o fb

O jogo do @poemainfinito está sendo alterado pelo twitter. Desde maio deste ano tweets têm sumido de forma aleatória. Assim, a “continuidade” imaginada por mim está modificado pelo acaso destes sumiços.

Pensei até em desistir desse jogo de poemas de 140 caracteres. Porém, ocorreu-me a idéia de que pará-lo por esse motivo seria uma incongruência com o próprio “espírito” da coisa, já que agora o @poemainfinito constitui uma narrativa, por assim dizer, “autônoma” e coerente com um tema – o do acaso – tão presente neles. Hoje exatamente o @poemainfinito virtual está com 88 tweets, na semana passada ele estava com 99.

Por sorte – por sorte mesmo, pois eu não costumo ser precavida – pouco antes de começar o sumiço, mais ou menos em maio, eu havia decidido fazer um arquivo em word com os tweets-poemas. E, depois do sumiço, continuei. Hoje o @poemainfinito “original” tem 112 tweets poemas. Que pretendo logo logo editar seguindo o modelo do cartão que foi colocado na última página do DUVIDA DIVIDA DADIVA. Então o @poemainfinito de papel também permitirá, de novo ao acaso, o embaralhamento e sumiço dos respectivos tweets de acordo com a própria vontade dos seus leitores.

Fall in love

Zéfiro

me carregue

pelos ares:

já saltei no abismo de Eros

 

Não por Ares

enlaçado

em gozo interminável,

preso na artesania

das teias

trançadas

pelo ciúme

de Hefesto,

 

nos braços

temíveis,

irresistíveis

dela,

Afrodite,

a deusa

que teve inveja

 

da beleza,

do amor

da mortal,

a mais bela:

Ela:

a que saltou

no abismo

de Eros.

 

Eram muitas

ainda

as provas de amor:

Ao abismo

ela se lançou

sem

poderes

divinos

sem

(humano)

medo.

 

Não havia mais nada a perder.

 

 

Nesse feito

(in

verso)

ignoro

o perigo

de dentro

do meu

precipício.

 

(sou)

rio

apenas.

 

Rendição

Continuo farta.

Excedida

Uma palavra só:

Basta.

 

****

Cada

palavra

separada

mente.

 

É assim que começa.

Você se apaixona

por elas e elas

 o traem:

estão na boca de todos.

 

São todas fáceis,

oferecem-se a todos

os amantes.

A maioria destes

á-vidos:

gozo precoce.

Ingênuos,

(a)creditam nelas,

as palavras,

seu gozo fingido.

Palavras-mortas,

Inertes,

sem sentido.

 

Amante traído:

Você as ignora:

num silêncio eterno e terno.

A espera:

Elas a traem também.

Rendido,

procura palavras

para os seus silêncios.

Gozo sentido.