Citação

“Sigmund Freud freqüentemente observava que as grandes revoluções da história da ciência tinham uma característica comum, até irônica: elas derrubam a arrogância humana, de um pedestal depois do outro, sobre nossas convicções em relação a nossa própria importância. Nos três exemplos apresentados por Freud, Copérnico deslocou nosso lar do centro para a periferia; Darwin então nos relegou a ‘descender de um mundo animal’; e, finalmente (em uma das afirmações menos modestas de toda a história intelectual) o próprio Freud descobriu o inconsciente e detonou o mito da mente inteiramente racional.

Nesse sentido sábio e crucial, a revolução darwiniana permanece deploravelmente incompleta porque, apesar de a humanidade pensante aceitar o fato da evolução, a maioria de nós ainda não está disposta a abandonar a visão consoladora de que evolução significa (ou pelo menos incorpora como princípio central) progresso, definido para facilitar o aparecimento de algo como a consciência humana, como praticamente inevitável ou pelo menos previsível. O pedestal não será destruído até que abandonemos o progresso ou a complexificação como princípio central e cheguemos a aventar a forte possibilidade de que o Homo sapiens seja apenas um ramo minúsculo que surgiu tarde no enorme arbusto em forma de árvore da via – um pequeno broto que certamente não apareceria uma segunda vez se pudéssemos replantar a semente do arbusto para deixá-lo crescer novamente.”

Spephen J. Gould. A imprevisível e fortuita evolução da vida. Scientific American História. Edição especial O Homem em busca das Origens – coleção História da Ciência no.7. São Paulo: Duetto Editorial, s/d.

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