São Paulo nos pés

Por Cassia Conti – RTV matutino*

Nova na terra da garoa, mas antiga nas minhas manias. Conhecendo um tanto mais de São Paulo me peguei muitas e muitas vezes tentando rearranjar as calçadas, como se com os pés conseguiria hora separar as peças em dois montes por cores ou até fazer um desenho que fosse meu e a partir de então ficaria lá pra fazer parte do cotidiano de novas pessoas.

Essa mania insistente me fez perceber como aquelas formas foram incorporadas ao dia-a-dia de tanta gente que pisa, senta e até dorme sobre elas.

Praça Vilaboim, Higienópolis

O desenho que ilustra muitas calçadas da cidade de São Paulo foi aplicado no final da década de 60. Escolhido em um concurso promovido pela prefeitura, o esquema do estado de São Paulo é da artista plástica, Mirthes Bernardes. O trabalho vai além de uma mera simplificação do traçado do estado, mas a construção engenhosa feita com apenas três peças, criando um padrão de repetição infinito.

Vilaboim, Higienópolis

Até 2004, a autoria desse projeto ainda era pouco conhecida, mesmo considerando que a artista já havia exposto no exterior.

Infelizmente o reconhecimento foi somente autoral. Não que isso seja insignificante, mas o projeto que ocupa muitas calçadas da “Paulicéia desvairada” poderia também render financeiramente a artista.

Praça Vilaboim, Higienópolis

É interessante ver como rabiscos, formas e desenhos invadem nosso espaço sem que nos demos conta. A calçada com certeza não é tão elaborada quanto uma tela, nem tão imponente quanto uma estátua, sequer tão agressiva quanto um graffiti, mas fica então a ressalva de que vale a pena olhar por onde se pisa.

  • Quando: a qualquer momento
  • Onde: em vários lugares (no caso Praça Vilaboim)
  • Até que a prefeitura resolva tirar
  • links relacionados:

http://revistaepocasp.globo.com/Revista/Epoca/SP/0„EMI86830-16296,00-A+ARTISTA+DAS+CALCADAS.html

*Nota do Blog: esse texto foi originalmente publicado no Blog  “Hucha Mama!” (http://huchamama.tumblr.com/search/cal%C3%A7ada) realizado pelos alunos do 3o. semestre de Cinema e Rádio e TV para a disciplina Estética no primeiro semestre de 2011.

Exposições de Arte: Alunos de Estética da FACOM-FAAP visitam, comentam e criticam!

Há duas “avaliações” que gosto especialmente na disciplina Estética, ministrada por mim às turmas do curso de Comunicação da FAAP:

1 – O relato da experiência estética mais significativa que eles vivenciaram e,

2 – As visitas às exposições de Arte – agora também admitindo Arte de e na Rua – publicadas em um blog da sala produzido pelos próprios alunos.

É esse último item que irei comentar. Com atraso. Pois, a cada mês, a cada semestre aparecem novos desafios. O tempo, por seu turno, permanece o mesmo…

Confira neste post os links que, de qualquer maneira, sempre estão disponíveis na barra à direita:

Turma A

Destaque para o post de Maria Fernanda sobre a Bienal. Olha ela aí:

Turma B

Destaco as visitas feitas por Mariana à Exposição da Coleção Pirelli de Fotografia, no MASP, mas que infelizmente já acabou.

Gostei também do post de Paula sobre a Exposição “O Espaço nas Entrelinhas”, de Fred Sandback, no Instituto Moreira Salles. Outros alunos também comentaram essa exposição que ainda dá tempo de ver. Vai até 24 de outubro. Sofia Derani comenta a exposição “Dream Machine”, no atelier de Regina Johas.

Aqui, Fred Sandback:

Fred Sandback

Turma C

Muito rico o blog “Quarto 213”, da turma C. O relato de Caio sobre sua visita ao “Umbraculum – Jan Fabre no Tomie Ohtake” nos faz acompanhá-lo em sua experiência. A visão do fotógrafo Miguel Rio Branco está na impactante “Maldicidade – Marco Zero”, no MuBE, por Gabriela Cruz. Cíntia Esteves traz informações sobre a escultura LOVE, de Robert Indiana. Ótimo também o comentário de Beatriz Gallo para “sobreViver”, exposição de pinturas de José de Quadros no SESC-Pompéia.

Cíntia Esteves em “Love”:

Turma G

É uma coisa um pouco incrível, mas qualquer grupo que convive junto um tempo acaba adquirindo uma espécie de “personalidade em grupo”. Noto bastante essa idiossincrasia em cada sala de aula. E a personalidade da turma G deste semestre é das mais “irônicas” – quando essa palavra indica uma coisa boa. Visite o site. Aqui um post não crítico e não sincero é exceção à regra.

Artur Renzo, na exposição “Vik Muniz – Verso”

Amina vai a Inhotim, mas não deixa barato!

Mayra no Beco do Grafite:

Turma H

Nesta turma, por exemplo, alguns alunos decidiram explorar mais uma possibilidade dada pelo trabalho. Falar sobre arte de rua. E não é que a Rafaela Pastore até entrevistou o grafiteiro Igor Kenzo? Marcela Auder também produziu um post muito bonito com as obras de Zeila e Tikka. E Tayla foi buscar o grafite dentro da Igreja Bola de Neve!

Rafaela diante de Koi-Fish num muro na av. Dr. Arnaldo:

A Marcela Auder em uma travessa da Cerro Corá!

Parabéns aos meus alunos!

Mozart e a construção da autonomia

A semana passada e ainda esta estamos discutindo na graduação o livro Mozart – Sociologia de um Gênio, de Norbert Elias.

João Rizek, que é aluno de Cinema, um músico que já tive a oportunidade de ouvir e já passou pela disciplina de Estética, escreveu respondendo a um pedido meu sobre o tema que intitula esse post: Mozart e a construção da autonomia. Confiram logo mais abaixo sua generosa e inspiradora contribuição. Eu espero que o esporos continue recebendo sua colaboração!

João mantem o blog Improviso Seletivo em que expressa suas opiniões musicais, e que a partir de hoje está linkado no “Dizem por aí”.

Chega de mais conversa: vamos “ouvir” o João:

“Mozart é, entre os compositores do classicismo vienense, o que mais se afasta do ideal estabelecido de classicidade, atingindo assim um ideal superior que se poderia chamar autenticidade.” Este fragmento escrito por Theodor Adorno, inserido no complemento de aforismos à obra maior do filósofo, Teoria Estética, nos mostra, para além de sua admiração em Mozart, sua crença na autonomia da arte. Autonomia que se estabelece por colocar o artista, no caso o músico, em um patamar superior àquele orientado pelas regras vigentes.

Wolgang Amadeus Mozart (1756-1791) foi, junto de Joseph Haydn(1732-1809), um dos pilares do classicismo. Breve movimento musical (1750-1810 aproximadamente) que viu surgir os mais célebres formatos, quarteto de cordas e a sinfonia entre eles. Sua chave se estabelece em uma recusa às sonoridades pesadas e afirmativas do Barroco, seu estilo é mais leve, sua tessitura mais simples. O classicismo é a afirmação definitiva da chamada música absoluta, ou seja, música sem referências externas a ela mesma; movimento que já vinha crescendo desde o Renascimento. Com a consolidação do formato instrumental, a música não está mais subordinada à palavra, a melodia se torna livre do caráter limitador da palavra, seu caráter abstrato passa a imperar.

Um bom e conhecido exemplo da noção de autonomia na obra de Mozart é sua sinfonia número 40 em sol menor K. 550. Nela, o primeiro tema do primeiro movimento (tocado pelas cordas) tem um caráter afirmativo, está seguindo em direção a algo até que é interrompido pelos instrumentos de sopro, mudando de direção logo em seguida. Aqui é claro o papel de cada instrumento na construção da narrativa musical, sua importância e sua identidade são levados ao máximo, eles são, em certo sentido, independentes, autônomos.

Já na sonata para piano em Lá menor K.310, a melodia é amparada pela mão esquerda do pianista, que se concentra em tocar acordes que sustentam o canto. A melodia sobressai toda a massa sonora buscando sua autonomia.

Devido ao caráter abstrato da música, por vezes é complicado entender aonde reside sua autonomia dentro do próprio discurso musical. É preciso ter em mente que cada instrumento desempenha um papel diferente na obra, é preciso saber ouvir aos diferentes temas presentes na música. Mozart talvez seja o melhor exemplo quando realizamos uma análise estabelecendo os contrastes entre as formas vigentes e suas obras mais ousadas, observar sua capacidade de ver adiante é verificar como afirmou Adorno que “na arte autônoma nada é válido que esteja aquém do nível técnico alcançado.”