Vik Muniz

 

Vik Muniz, da série "Crianças de Açúcar", 1996

Vik Muniz, da série "Crianças de Açúcar", 1996

Por:

  • Marco Lafer Amorim
  • Marcelo Lee
  • Rafael Campedelli
  • Gustavo Moraes

Ao entrar na sala principal do MASP que, desde o dia 24 de Abril, cede espaço à retrospectiva da obra do artista plástico brasileiro Vik Muniz, o visitante vê-se induzido a sintonizar com o projeto estético-estilístico de caráter virtuoso e megalomaníaco de Vik – com as desculpas pelo uso desse adjetivo menor, a megalomania, retirado de um repertório concernente ao senso comum barato, mesmo que, por meio de um olhar mais apurado, seu uso justifique-se visto que quando se apela ao deslumbramento técnico a resposta imediata vem mais do arregalar dos olhos das massas e menos da leitura de um possível discurso poético-semântico, ou, poético-sintático.

Vik, ao longo de sua carreira cria uma extensa produção cujo princípio compositivo consiste em séries fotográficas de diversas assemblages (colagens e reunião de matérias primas diversas) feitas através de materiais que trazem, por sua vez, um segundo discurso quando contrastados ou aproximados ao conteúdo que exprimem ao serem fotografados, bidimencionalizados em sua nova forma.

“Quis criar imagens que permitissem ao observador leituras múltiplas e que ele se tornasse consciente de sua participação”. (Vik Muniz)

Tomemos como exemplo a série de retratos de pessoas negras que Vik confecciona utilizando-se do açúcar como matéria prima, discursando, assim, sobre a composição de nossa imagem, de nosso retrato,  a partir daquilo que nós mesmos engendramos, visto que a produção dos descendentes das pessoas retratadas, período da escravidão, era majoritariamente o açúcar. Assim, Vik parece dizer que nossa imagem vem sendo mediada pelos produtos, ou pelas idéias, por nós, ou por nossos pares, concebidos com os olhos do mundo.

 

Da série "Lixo"

Da série "Lixo"

O discurso entre a matéria que constitui a figura e a figura por ela desenhada é retomada em diversas outras séries como quando Vik reproduz imagens bélicas à partir de soldadinhos de plástico, ou quando retrata personalidades predominantes na mídia e da elite social utilizando-se de diamantes e caviar. Outro exemplo, um dos mais impressionantes no quesito da virtuosidade, é a confecção de imagens de trabalhadores no lixão através dos objetos por eles mesmos recolhidos.

Utilizando-se destes objetos do universo de consumo para constituir suas montagens, em planos plongées absolutos, Vik incorpora o universo do Kitsch, tangenciando assim pontos análogos à proposta estético-estilística do tropicalismo, principalmente no que diz respeito às manifestações no campo do cinema e da música –  afinal, tanto o disco “Tropicália ou Panis et Circencis”, quanto o filme “O Bandido da Luz Vermelha”, trazem essa mesma incorporação. Assim, em primeira análise, o discurso por sobre o material e a imagem por ele formada é interessante, porém, este perde sua complexidade quando comparado com dois dos movimentos mais revolucionários do âmbito artístico: o Dadaísmo e a Pop Art. Em uma brevíssima consideração podemos postar que o primeiro trouxe ao cenário artístico do início do século XX o choq, a quebra no olhar, na percepção e na própria idéia consagrada de objeto arte. Posteriormente, o Pop vem como que para institucionalizar o choq Dadá, educando o olhar popular para compreender suas colagens, seus objects trouvés e seus ready-mades como objeto arte e mais, utilizá-los como instrumento de celebração da cultura americana. Na sombra de tudo isso, Vik parece colocar-se como um artista anacrônico, cuja proposta dificilmente transcende uma interessante experiência estética, logo, alcunhado por alguns críticos contemporâneos como dentro do subgênero artístico denominado “Fun”.

Da série "Montinhos"

Da série "Montinhos"

Tomemos como exemplo sua série “Montinhos” na qual ele reúne diversos objetos de pequena dimensão que não possuem nenhum ponto de intersecção tanto na forma quanto na função. A obra parece, pois, ser uma releitura rasa, ao menos competentemente estetizada em belas reproduções a partir de fotografias em grande formato, das assemblages de Kurt Schwitters, no movimento dadaísta, e mesmo das de Richard Hamilton e Rauschemberg, no movimento Pop, nas quais a aproximação de objetos díspares parecia apresentar a idéia de que todos eles reunidos, colados antes nas assemblages, agora nos montinhos, tornam-se análogos devido a reificação no mundo da práxis mercantil. Mundo no qual o universal concreto, ou seja, em linhas gerais, tudo, é mercadoria.

Kurt Schwitters, "Construções para Damas Nobres", 1919.

Kurt Schwitters, "Construções para Damas Nobres", 1919.

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Da série "Nuvens", 2001.

Da série "Nuvens", 2001.

Um dos trabalhos apresentados na retrospectiva, porém, destaca-se profundamente ao apresentar uma reflexão semiótica não somente notável, mas também, demasiado poética. Em “Nuvens”, Vik Muniz, tirou uma série de fotografias em formato skyline da cidade de Nova York, onde mora desde 1983, nas quais o céu limpo apresentava apenas uma única nuvem, esta, porém, produzida pela fumaça de uma pequena aeronave. As nuvens representadas pelos rastros do piloto remetiam não às nuvens realistas, naturalmente amorfas, mas ao signo visual, convencionalmente institucionalizado no mundo da comunicação, da nuvem. Assim, o signo parece vir para substituir o próprio objeto que o criou. Vik recria, pois, um movimento muito típico da chamada Pós Modernidade caracterizada, dentre outros aspectos, pelo gradual caráter virtual do mundo sensível.

(nota: Vale postar que a constituição de imagens bidimensionais por meio da reunião de objetos tridimensionais confere à obra de Vik um caráter cinematográfico, tendo em vista que o procedimento de bidimencionalização do mundo em três dimensões configura-se presente em ambas. Isso é reforçado com as constantes referencias que o artista trás do principio compositivo cinematográfico, da matéria prima da imagem, tanto o grão do nitrato de prata da película, quanto os pixels do cinema digital).

Da esq. para a dir.: Marco Lafer, Rafael Campedelli, Marcelo Lee e Gustavo Moraes

Da esq. para a dir.: Marco Lafer, Rafael Campedelli, Marcelo Lee e Gustavo Moraes

 Nota do blog: O site de Vik Muniz traz farto material sobre o artista, incluindo vídeos sobre o processo criativo de várias obras.

Confira especialmente no link Gallery, ano de 1996, o “documentário”

Worst Possible Illusion: The Curiosity Cabinet of Vik Muniz
Mixed Green Production (54 min.)
Director and Producer: Anne-Marie Russel

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